sexta-feira, 6 de julho de 2012

OTTO MARIA CARPEAUX

Este é o início do meu texto da Introdução ao livro História da literatura ocidental, de Carpeuax, em quatro volumes, publicado pelo Conselho Editorial do Senado:



Estava eu no escritório de Antonio Houaiss, na Rua São José, onde o filólogo dirigia a Enciclopédia Mirador Internacional. Acabara de chegar, acomodara-me muito timidamente numa cadeira, com medo de aquilo resultar em visita desabrida. Eis que irrompe escritório adentro um septuagenário, gravata vermelha de seda e camisa de listas espaçadas também vermelhas. O senhor tinha nas mãos maço de papéis. Dirigiu-se a Houaiss com intimidade de velhos amigos. Não me lembro se o chamou pelo pré-nome ou pelo sobrenome. O certo é que disse:
            – Isto aqui não corresponde à verdade. O que está dito aqui sobre Farmácia está incorreto.
            E ambos começaram a discutir sobre a História da Farmácia, até que Houaiss sentenciou:
            – O que você decidir está feito.
            O leitor já deve ter percebido que o homem que adentrara o escritório era Otto Maria Carpeaux. Eu acabara de ver, pela única vez, uma figura quase lendária da cultura brasileira. E não deveria estranhar a cultura enciclopédica de Carpeaux. Afinal, o vienense, nascido com o século (1900), formara-se em Direito, mas com doutorado em Matemática, Física e Química e, em 1925, doutorou-se também em Filosofia e Letras.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Imaginaciones violadas, poema em espanhol RCF





El panadero ejerce el fermento
en la alquimia del horno
que todo lo asa: trigo y cotidianeidad.

Hay cola de espantos
para comprar el alimento
que ya está en nosotros:
rutina de existir cada mañana.

Hay algo de bíblico
en mi ateísmo descafeinado
y en el confuso café con leche
en el que las materias filosóficas
se redujeron, en mi mesa, a migajas.

La imaginación es el gran panadero,
por un lado me fermenta,
por otro me coloca en su horno:
la combustión de existir.

(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)




Imaginações violadas




O padeiro exerce o fermento
na alquimia do forno
que tudo assa: trigo e cotidiano.

Há fila de espantos
para comprar o alimento
que já está em nós:
rotina de existir todas as manhãs.

Há algo de bíblico
em meu ateísmo amanteigado
e no confuso café com leite
em que as matérias filosóficas
se reduziram, em minha mesa, a migalhas.

A imaginação é o grande padeiro,
de um lado me fermenta,
de outro me coloca em seu forno:
a combustão de existir.

(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)



quarta-feira, 4 de julho de 2012

Lección de anatomia, poema em espanhol RCF




Soy cosa
Algo semejante a
                       lápiz o vela
que para existir se consume
esgrimiendo garabatos o quemándose
en el fulgor de las palabras o en la luz suicida
que ilumina mientras se inmola.

El bombo de los solitarios es el mismo que el de los eufóricos
gime con la misma voz sorda
al compás del tiempo de las matrices.

La tarde
con su envoltura de nubes
conspira con voces en la liturgia de los alborotos.

La vida es un error:
                             algunos llegan a ser sentenciados
                             a los ochenta años de vida.


(do livro Andarilho, Ed. 7Letras, Rio de Janeiro, 2000)

 
 
Lição de anatomia


Sou coisa
Algo assemelhado a
                           lápis ou vela
que para existir se consome
esgrimindo garatujas ou se queimando
no fulgor das palavras ou na luz suicida
que ilumina enquanto se imola.

O bumbo dos solitários é o mesmo dos eufóricos
geme a mesma voz surda
no compasso do tempo das matrizes.

A tarde
com seu invólucro de nuvens
conspira com vozes na liturgia dos alvoroços.

A vida é um erro:
alguns chegam a ser sentenciados
a oitenta anos de vida.


(do livro Andarilho, Ed. 7Letras, Rio de Janeiro, 2000)



Traducción de Alícia Silvestre y su equipo de alumnos en la Universidad Nacional de Brasília

terça-feira, 3 de julho de 2012

El animal barbado, poema em espanhol RCF




Este animal que se rasura
como quien raspa la oreja del cerdo
para el plato del domingo,
este animal feroz y matutino,
como un autorretrato,
con sus ojos 3 x 4,
observa el paisaje desde la ventana
y al otro lado del cristal
está él mismo,
es él el paisaje que envejece
cada vez que la visita.
Este hombre al espejo,
cuchilla de martirios y angustias violáceas,
afeita su minuto y su muerte,
exasperada y afilada servidumbre,
la conciencia espumosa de la pequeña guillotina.


(del libro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)





O animal barbado

Este animal que se rasura
como quem raspa a orelha do porco
para a feijoada de fim de semana,
este animal feroz e matutino,
como um auto-retrato,
com seus olhos 3 x 4 ,
observa a paisagem da janela
e do outro lado do vidro
está ele mesmo,
é ele a paisagem que envelhece
cada vez que a frequenta.
Este homem ao espelho,
gilete de martírios e angústias violáceas,
barbeia seu minuto e sua morte,
exasperada e afiada servidão,
a consciência espumosa da pequena guilhotina.


(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)


 
Tradução Alícia Silvestre e alunos de pós-gradução da UnB

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Bandera, poema em espanhol Ronaldo Costa Fernandes





Mi bandera es no izar bandera.
Mi bandera es el toque de silencio,
la muerte del soldado desconocido
que soy.
¿Quién pondrá flores
en este monumento a mi batalla?
Mi orden no tiene progreso.


Traduzido por Alicia y por su grupo de traducción de la Universidade Nacional de Brasília


Bandeira



Minha bandeira é não dar bandeira.
Minha bandeira é o toque de silêncio,
a morte do soldado desconhecido
que sou.
Quem depositará flores
neste monumento à minha batalha?
Minha ordem não tem progresso.


(do livro A máquina das mãos, 7Letras, 2009)


domingo, 1 de julho de 2012

Da linguagem, poema de Hildeberto Barbosa Filho

Meu código
de ira e de uivos
combina signos
perfumados,
sintaxes inauditas.

Na minha frase faz
o tempo vertical.

Meu idioma
é a sobra das coisas
arruinadas.

A poesia bruta
da vida e sua imagens
fraturadas.

Os violinos da morte
numa sinfonia
inacabada.


Hilberto Barbosa Filho acaba de publicar Nem morrer é remédio (poesia reunida), pela Editora Ideia, de João Pessoa. Um dos mais importantes e sólidos poetas brasileiros da contemporaneidade, Hildeberto reúne aqui todos os livros de sua brilhante carreira. Um livro fundamental para quem quer estar antenado com a melhor produção poética do momento.