sábado, 21 de janeiro de 2012

Carta para a mãe, poema RCF




Por que me deste dois pés de esponja,
se sabias que o caminho era pantanoso?
Por que me deste este desequilíbrio,
este perigo de alto mar ao atravessar a rua?
Esta saliva de areia,
este estômago que digere a si próprio
este nervo exposto,
esta memória feita de cobogós?
Por que me fizeste
com estatura pequena,
eu, que tenho um metro e oitenta?
Por que não terminaste meu rosto
que só tem um lado
e, por isso, não posso dar a outra face?

(A máquina das mãos, 2009)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Marítimo, poema RCF

 Elina Brotherus's Baigneuse, Orage Montant'

                                   Ronaldo Costa Fernandes


Que velocidade marítima está em nós,
que Deus sabe de meus pecados
e tombadilhos
à espera de um
dedo de proa
que nos livre do
cais, do caos
e da desordem?

Que jardim marítimo planta
a rosa dos ventos
nesta naufragata
que avança alucinada e pura
e não me popa
destes diários desatinos
                                   de bordo?

Este mar não me salva-vida
me leva o Leme
faz do Rio um mar
e me naufraga na onda
das marés da moda.
Este o dilema, o fato mercante
que me assalta:
a bússola ou a vida?

                                   (do livro Estrangeiro, Rio, 7Letras, 1997)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Lição de anatomia, poema RCF





Sou coisa
Algo assemelhado a
lápis ou vela
que para existir se consome
esgrimindo garatujas ou se queimando
no fulgor das palavras ou na luz suicida
que ilumina enquanto se imola.

O bumbo dos solitários é o mesmo dos eufóricos
geme a mesma voz surda
no compasso do tempo das matrizes.

A tarde
com seu invólucro de nuvens
conspira com vozes na liturgia dos alvoroços.

A vida é um erro:
alguns chegam a ser sentenciados
a oitenta anos de vida.



(do livro Andarilho, Rio, 7Letras, 2000)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Desaforismos, Paulo Paniago





acontece, ele explicou, que nunca foi provada a hipótese de samuel taylor coleridge de um homem passar em sonho pelo paraíso e ganhar uma flor para depois, ao acordar, ter de fato uma flor na mão.




(foto e texto retirados do blog de Paulo Paniago, desaforismos, vale a pena conferir)