sábado, 6 de agosto de 2011

Poema para o suicida, RCF


I

Os exames de sangue
não dizem quantos ml. de ruína
podem acusar o suicida.
O suicídio é quando
o lençol freático das veias
sobe ao leito da pele em punho cortado.

Nunca está atrasado o suicida
pois não há atraso
para a hora aziaga.
Tem em seu relógio
uma bomba
anda sempre afogado
cada rua ou avenida
(anda sempre de pé nos parapeitos)
é a aleia principal do cemitério
dos vivos em que é obrigado
a naufragar a cada manhã.

Se Narciso morreu
se adorando
não se suicidou.
O suicídio é olhar
o lago e ver o fundo
sem ver seu rosto.

O homem não escolhe o suicídio
o suicídio é que o escolhe.
Vê a magreza da alma,
a vida que não é sonho,
o pôr do sol cheio de espinhos
e aí decide nele se alojar.

Suicídio é o cano de escape
com que respiramos,
a fuga para dentro de si
como o peixe que pula
para a prisão do ar livre.

II

Os suicidas – os suicidas
que me perdoem, se tento
entendê-los – quando não
deixam bilhete, falam
escrevem através do corpo,
do corte, do ar envenenado,
do alçapão, da fruta madura
em que se tornaram. O bilhete
final pode até ser escrito,
mas está melhor inscrito
no corpo que sofre a demissão
da mente, esta que já morreu
antes, esta que enforcou o
pensamento, inalou a ideia
mórbida a ideia do fim.
Que outro alfabeto também
usam os suicidas? Além
da carta, lançam a última
frase pelo voo cego dos
verbos na voz passiva, pelo
ponto final, pelo adjetivo
abstrato do gás, pela letra
pela letra retorcida da corda.

(A máquina das mãos, 2009)

imagem retirada da internet: chagall

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Danação, poema RCF


Na sala de jantar da infância,
havia uma parede de tijolos de vidro.
Como – perguntava o menino –
se pode edificar sobre o que nos fere?
Depois, no útero da rede
tarde e túmulo
o caderno egípcio de caligrafia
sob o peito dormido
silêncio túrgido.

À noite, o castigo escuro do quarto
– a vida inteira pergunta qual o erro –
na bolsa de paredes infindas da memória
que não se enche nem esvazia
o pássaro do remorso que bica insistente.

Estou cansado de pisar na minha sombra.
Oh, tanto que pareço ser dela reflexo,
não ela de mim.

O que visto tem costura
de fio sem meada.
Planto um pé de imobilidade no jardim.
Amanhã colherei os frutos da solidão
que já estão mortos ao nascer.
Por isso preciso de jardineiro.
É difícil podar as plantas aquáticas,
pois essas só sobrevivem
na água amniótica da rotina.

(A máquina das mãos, 2009)

imagem retirada da internet: amarras

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Dois poetas de Brasília

Nicolas Behr


os três poderes são um só:
o deles

nem tudo que é torto é errado
veja as pernas do garrincha
e as árvores do cerrado

SQS4115F303
SQN303F415
NQS403F315
QQQ313F405
SSS305F413

seria isso
um poema
sobre Brasília?

seria um poema?
seria Brasília?
eixos que se cruzam
pessoas que não se encontram
.....................
a cidade é isso mesmo
que você está vendo
mesmo que você
não esteja vendo nada
..................

começa a demolição
quero pra mim
os anjos da catedral
.......................
a superquadra nada mais é
do que a solidão
dividida em blocos



(poema de Braxília Revisitada, 2004)


Alexandre Pilati




auto-atestado



tenho a mesma idade de David Beckham
em criança aprendi a respeitar os mais velhos e a ter
vergonha deles
tomei alguns antibióticos, analgésicos, usei supositórios,
fantasiei aventuras
senti dores no corpo, tive uma infecção intestinal e
ganhei concursos literários na escola
fraturei o perônio, não acredito em duendes e nada
disso mudou o fato de que

tenho a mesma idade de David Beckham

nunca repeti o ano, mesmo sendo um aluno mediano
que lia pornografia e filosofia
tenho calças jeans da moda compradas em liquidações
de lojas de departamento
atendo ao telefone com cordialidade fingida quase
sempre, pois odeio telefone
dirijo com destreza impressionante e tenho horror à
canalha, o que me faz lembrar que

tenho a mesma idade de David Beckham

perdi a virgindade, fiz discursos, chorei algumas vezes
e falo da doméstica como se ela integrasse uma raça
paralela
chorar é cada vez mais difícil, agora que tenho mais
escravos e acesso rápido à www
compadeci-me dos desesperados, dos pobres, das
prostitutas e de meus CD´s e livros
nunca transei com uma puta ou cheirei cocaína mas,
mesmo inconscientemente, sei que

tenho a mesma idade de David Beckham

assisto ao futebol, à novela, ao jornal, ouço Chico e
Caetano e sou latino-americano
adoro praia e luxo, odeio gerúndios e loiras oxigenadas,
jazz e axé music
me acho normalmente mais inteligente que os outros
mesmo sabendo que sou uma besta como qualquer um
sinto-me mais limpo que o porteiro e o tumulto febril
da cidade e do cyberespaço parecem sempre me
anunciar que

tenho a mesma idade de David Beckham

creio-me brasileiro, possua uma dívida com a receita
federal e meus ideais sempre estiveram à esquerda
não jogo lixo pela janela do carro nem de casa, uso
cinto de segurança e aliança
já acreditei em Deus e no PT, hoje comporto-me bem à
mesa e isso é tudo que me basta
tenho fé no cinema nacional e assino revistas semanais
que me lembram de que

tenho a mesma idade de David Beckham

já dei jóias de presente e não sou afeito a escândalos,
mesmo sendo desabusado e cínico
sou ateu e li literatura: Drummond, Cabral, Dostoievski,
Gullar, Machado, Kafka, Rulfo, Brecht, Beckett, Neruda
nada disso basta para quem mora na asa sul, no plano
piloto, perto do eixo sul
pois sempre sinto a iminência de um terremoto capaz
de me revelar outra vez que

tenho a mesma idade de David Beckham

ando temeroso pela rodoviária às duas horas da tarde
de uma véspera de feriado
nunca vou às cidades satélites e condeno o trabalho
voluntário e o jejum
meu carro é um balão de ar condicionado singrando
ruas da capital federal às 7:00 am
prefiro a macumba à igreja evangélica para tentar
esquecer que

tenho a mesma idade de David Beckham

saberia usar como ninguém uma metralhadora se
morasse no Oriente Médio
não jogo videogame e condeno filmes violentos, mas
isso não me impede de às vezes tomar água com gás
já tive o nome negativado durante cinco anos, mas a
dívida expirou e hoje posso enganar qualquer um
grudo as melecas que retiro do nariz embaixo de minha
mesa de trabalho, onde há um aviso dizendo:

tenho a mesma idade de David Beckham

sou professor e utilizo numa boa o sistema urbano de
transportes coletivos
uma bala pode a qualquer segundo estourar em meu
peito ou em minha têmpora
e nunca terei sido entrevistado, não terei causado
loucura em ninguém, nem sequer matado alguém que
merecesse morrer
também não terei salvo nenhuma vida ainda que
queime 80% do corpo
mas sempre saberei que

tenho a mesma idade de David Beckham

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Soneto XXVI, Cláudio Manuel da Costa




Não vês, Nise, este vento desabrido,
Que arranca os duros troncos? Não vês esta,
Que vem cobrindo o céu, sombra funesta,
Entre o horror de um relâmpago incendido?

Não vês a cada instante o ar partido
Dessas linhas de fogo? Tudo cresta,
Tudo consome, tudo arrasa, e infesta,
O raio a cada instante despedido.

Ah! não temas o estrago, que ameaça
A tormenta fatal; que o Céu destina
Vejas mais feia, mais cruel desgraça:

Rasga o meu peito, já que és tão ferina;
Verás a tempestade, que em mim passa;
Conhecerás então, o que é ruína.

imagem retirada da internet: fotolog, casa de claudio manuel da costa, ouro preto

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Vertigem das baixezas, poema RCF




Os alpinistas escalam a morte.
Também sei o perigo do cume,
mesmo sem me deslocar,
sei o alpinismo dos olhares submersos
que me fazem perder o pino.



(Eterno passageiro, 2004)


imagem retirada da internet: vicente do rêgo monteiro